Durante décadas, o rádio AM foi a voz que uniu o Brasil. Das grandes capitais às pequenas comunidades do interior, suas ondas levaram notícias, esportes, música e informação para milhões de brasileiros. Bastava ligar um rádio para ouvir a emissora local ou, durante a noite, captar estações de estados distantes graças à propagação das ondas médias.
Entretanto, a partir da segunda década do século XXI, a radiodifusão brasileira iniciou uma das maiores mudanças de sua história: a migração das emissoras AM para a faixa FM.
Essa transformação modificou a forma de fazer rádio, alterou o cenário da radioescuta e marcou o início de uma nova fase para o setor.
O rádio AM e sua importância
Por muitos anos, o AM foi o principal meio de comunicação do país. Sua grande vantagem era o alcance do sinal. Durante o dia, uma emissora podia cobrir dezenas ou centenas de quilômetros. À noite, graças à reflexão das ondas na ionosfera, esse alcance aumentava significativamente, permitindo que ouvintes e DXistas captassem emissoras situadas a milhares de quilômetros de distância.
Foi por meio do AM que o Brasil acompanhou fatos históricos, transmissões esportivas memoráveis, radionovelas e programas que marcaram gerações. Em muitas cidades, a emissora local era mais do que um veículo de comunicação: era parte da identidade da comunidade.
Por que foi necessária a migração?
Com o avanço da tecnologia, o rádio AM passou a enfrentar dificuldades cada vez maiores. O crescimento das áreas urbanas trouxe um aumento expressivo da poluição eletromagnética. Fontes de alimentação eletrônicas, computadores, carregadores, redes de internet, lâmpadas LED e diversos equipamentos passaram a gerar interferências que prejudicavam a recepção em ondas médias.
Além disso, muitos aparelhos modernos deixaram de oferecer boa recepção em AM, enquanto o público passou a preferir o FM, que apresenta áudio mais limpo e estéreo.
Outro fator importante foi o alto custo de operação das estações AM. Os transmissores consomem mais energia e exigem estruturas maiores de manutenção quando comparados aos equipamentos utilizados na faixa FM.
O início da migração
Em 2013, o Governo Federal autorizou oficialmente a migração das emissoras de ondas médias para a faixa FM, iniciando um processo que mudaria o panorama da radiodifusão brasileira. O objetivo era preservar as emissoras locais, melhorar a qualidade do áudio oferecido aos ouvintes e garantir maior competitividade frente às novas plataformas digitais.
Centenas de emissoras aderiram ao programa, enquanto outras permaneceram temporariamente no AM até a conclusão dos processos técnicos e regulatórios.
O nascimento do FM Estendido
Em muitas cidades brasileiras, a faixa tradicional de FM, entre 88 e 108 MHz, já estava praticamente ocupada. Para permitir a entrada das emissoras migrantes, foi criada a faixa conhecida como FM Estendido, compreendida entre 76,1 e 87,5 MHz.
Inicialmente, muitos ouvintes precisaram trocar seus receptores, pois os rádios antigos não cobriam essa nova faixa. Atualmente, grande parte dos automóveis novos e dos receptores modernos já oferece suporte ao FM Estendido, facilitando o acesso às emissoras migradas.
O impacto para os ouvintes
Para a maioria dos ouvintes, a mudança foi positiva. O áudio tornou-se mais limpo e a sintonia passou a ser mais estável, especialmente nos centros urbanos. Entretanto, alguns desafios também surgiram.
Enquanto o AM era capaz de cobrir grandes áreas com um único transmissor, o FM possui alcance mais limitado e depende das características do relevo. Em regiões montanhosas ou muito afastadas dos centros urbanos, algumas comunidades passaram a enfrentar dificuldades para receber determinadas emissoras.
E para os radioescutas?
Para quem pratica radioescuta e DX, a migração representou uma mudança profunda. Durante décadas, as ondas médias brasileiras ofereciam inúmeras oportunidades para a prática do DX nacional. Em noites de boa propagação, era possível identificar emissoras de praticamente todas as regiões do país.
Com a migração para o FM, o número de estações em ondas médias diminuiu significativamente, reduzindo as possibilidades de escutas de longa distância nessa faixa.
Por outro lado, o FM também passou a despertar maior interesse entre os DXistas. Em condições favoráveis de propagação, fenômenos como a propagação troposférica e a abertura da camada Es permitem captar emissoras situadas a centenas de quilômetros, tornando o DX em FM uma modalidade cada vez mais popular.
Para os apaixonados por rádio e pela radioescuta, fica a lembrança das longas noites percorrendo o dial das ondas médias em busca de sinais distantes.





